quinta-feira, 3 de junho de 2010

Olhos de Ressaca

Pois bem, quem nunca ouviu ou leu esta expressão?


Mais que 100 anos depois, ainda temos uma incógnita que paira sobre a fidelidade de Capitu.
Obra machadiana escrita em 1899, e um dos grandes best-sellers da literatura clássica; Dom Casmurro, mesmo com uma linguagem sisuda e não contemporânea quanto à escrita, consegue ser atual no que diz respeito a uma das maiores incertezas da nossa vida conjugal, a fidelidade. Por assim dizer, não só entra em questão a nossa amada Capitu, como também aquela dúvida que sempre fica nos rodeando, que gera uma coceirinha na nossa cabe...; orelha, sim, orelha!
Quantas traições existiram ou não dentro da nossa vida, Machado, conseguiu fazer o indecifrável.
Não fui traído e nem estou com alguma cisma me rodeando, aliás...
Bentinho morreu com essa dúvida, ou pior, ele revive diversas vezes sem chegar a nenhuma conclusão.
Se alguém não se lembra, o título foi atribuído pelo personagem principal ser calado e metido, recluso; o "título" de Dom veio por pura ironia.Talvez daí tenha lhe faltado a intromissão do ombro amigo, se bem que a duvída está ligado a este último.
Talvez pela data alusiva que se aproxima, tal livro me veio à cabeça, enfim.
O que é certo, é o talento de Machado e a importância dessa obra pra nossa sociedade.
Olhe mais para os lados, cuide-se para não ser absorvido pelos revoltos olhos de ressaca, e não deixe de se divertir nos braços das "Capitus" que aparecerem no caminho.
Brincadeiras a parte, segue abaixo o fragmento.
Leia, contextualize e tire suas conclusões.


“Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá idéia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros; mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me. Quantos minutos gastamos naquele jogo? Só os relógios do céu terão marcado esse tempo infinito e breve. A eternidade tem as suas pêndulas; nem por não acabar nunca deixa de querer saber a duração das felicidades e dos suplícios.”

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