domingo, 20 de junho de 2010

Homenagem Póstuma

Infelizmente perdemos um grande escritor.
Saramago se foi no último dia 18 de junho aos 87 anos, e com certeza todos nós sentiremos muito por sua partida.
Percalços, dificuldades e persistência; acho que são palavras que marcaram a vida deste Português.
Filho de uma família simples, autodidata e dedicado desde cedo aos estudos; devido as suas origens, Saramago foi impedido de entrar na universidade.
Durante algum tempo, o mesmo ficou sem publicar; em outro, partiu para as poesias, e apenas alcançado realmente o sucesso e os elogios da crítica no final da década de 80; por vezes, seu talento foi questionado e posto em xeque.
Contista, romancista e dramaturgo; o patrício em questão, por vezes polêmico e engajado politicamente; deixa hoje órfãos do saber, e mais pobre a nossa literatura.
Segue abaixo algumas passagens de Saramago, publicadas em seu Blog, Outros Cadernos.


Cada vez mais sós
Por Fundação José Saramago

Acho que todos nós devemos repensar o que andamos aqui a fazer. Bom é que nos divirtamos, que vamos à praia, à festa, ao futebol, esta vida são dois dias, quem vier atrás que feche a porta – mas se não nos decidirmos a olhar o mundo gravemente, com olhos severos e avaliadores, o mais certo é termos apenas um dia para viver, o mais certo é deixarmos a porta aberta para um vazio infinito de morte, escuridão e malogro.

“Cada vez mais sós”, in Deste Mundo e do Outro, Ed. Caminho, 7.ª ed., p. 216
(Selecção de Diego Mesa)


Responsabilidade
Por Fundação José Saramago

As misérias do mundo estão aí, e só há dois modos de reagir diante delas: ou entender que não se tem a culpa e, portanto, encolher os ombros e dizer que não está nas suas mãos remediá-lo — e isto é certo —, ou, melhor, assumir que, ainda quando não está nas nossas mãos resolvê-lo, devemos comportar-nos como se assim fosse.

La Jornada, México, 3 de Dezembro de 1998



Exibicionismos
Por José Saramago
Palavras como discrição, reserva, recato, pudor ou modéstia ainda se encontram em qualquer dicionário. Temo, porém, que algumas delas venham a ter, mais cedo ou mais tarde, o triste destino da palavra esgártulo, por exemplo, varrida, como outras, do dicionário da Academia por uma manifesta e pertinaz falta de uso que havia feito dela um peso morto nas eruditas colunas. Eu próprio não me lembro de a ter dito alguma vez e muito menos tê-la escrito. Já a palavra reserva, embora vá a caminho de perder a acepção que me levou a incluí-la na lista acima, tem garantida uma vida longa por aquilo da reserva de bilhete ou de lugar sem os quais serviços fundamentais como os transportes aéreos simplesmente não funcionariam. E isto sem esquecer outra reserva, a mental, inventada pelos jesuítas como explicação última de terem dito primeiro uma coisa e feito depois a contrária, operação, aliás, que vingou e prosperou ao ponto de acabar por se difundir na sociedade humana como condição mesma de sobrevivência.
Não é minha intenção moralizar, além de que se o fizesse perderia o meu tempo e suspeito que alguns leitores. Bem sabemos que a carne é fraca e que ainda o é mais o espírito por muito que se costume gabar das suas supostas fortalezas, que o ser humano é o território por excelência de todas as tentações amáveis possíveis, tanto as naturais como as que veio inventando em séculos e milénios de práticas reiteradas. Bom proveito lhe faça. Que atire a primeira pedra quem nunca se deixou tentar. A coisa começou por desapertar-se a roupa, por usá-la mais leve e reduzida, também mais transparente, pondo à mostra um número cada vez maior de centímetros quadrados de pele até se chegar ao nudismo integral cultivado com franqueza absoluta em certas assinaladas praias. Nada de grave, porém. No fundo, há em tudo isto, como já escrevi noutro contexto, uma certa inocência. Adão e Eva também andavam nus e, contra o que a Bíblia diz, sabiam-no perfeitamente.
Ao pôr em funcionamento o vigente espectáculo universal que concentra e ao mesmo tempo dispersa as atenções do mundo, não parece que hájamos previsto que iríamos dar nascimento a uma sociedade de exibicionistas. A divisão entre actores e espectadores acabou, o espectador vai para ver e ouvir, mas também para ser visto e ouvido. O poder da televisão, por exemplo, alimenta-se em grande parte desta simbiose malsã, mormente nos chamados reality shows, onde o convidado, para isso pago e às vezes regiamente, vai pôr a descoberto as misérias da sua vida, as traições e as vilezas, as canalhices próprias e alheias, e, se necessário fôr ao espectáculo, as da família e dos seus próximos. Sem discrição nem reserva, sem recato nem pudor, sem modéstia. Não faltará quem diga que ainda bem que é assim, que devemos abandonar aquele ferro-velho vocabular, portas abertas ainda que a casa cheire mal, alguns, não duvidemos, irão mesmo ao extremo de afirmar que se trata de um benéfica efeito da democracia. Dizer tudo, com a condição de que o essencial fique escondido. Sem vergonha.

 
O endereço abaixo para aqueles que tiverem o interesse em se aprofundar na obra do ganhador do prêmio Nobel de Literatura de 1998.
http://caderno.josesaramago.org/

 

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