terça-feira, 22 de junho de 2010

@chei n@ NET. - Encontro reciclado

Lixo

Por Luís Fernando Veríssimo

Encontram-se na área de serviço. Cada um com seu pacote de lixo. É a primeira vez que se falam.
- Bom dia...
- Bom dia.
- A senhora é do 610.
- E o senhor do 612
- É.
- Eu ainda não lhe conhecia pessoalmente...
- Pois é...
- Desculpe a minha indiscrição, mas tenho visto o seu lixo...
- O meu quê?
- O seu lixo.
- Ah...
- Reparei que nunca é muito. Sua família deve ser pequena...
- Na verdade sou só eu.
- Mmmm. Notei também que o senhor usa muito comida em lata.
- É que eu tenho que fazer minha própria comida. E como não sei cozinhar...
- Entendo.
- A senhora também...
- Me chame de você.
- Você também perdoe a minha indiscrição, mas tenho visto alguns restos de comida em seu lixo. Champignons, coisas assim...
- É que eu gosto muito de cozinhar. Fazer pratos diferentes. Mas, como moro sozinha, às vezes sobra...
- A senhora... Você não tem família?
- Tenho, mas não aqui.
- No Espírito Santo.
- Como é que você sabe?
- Vejo uns envelopes no seu lixo. Do Espírito Santo.
- É. Mamãe escreve todas as semanas.
- Ela é professora?
- Isso é incrível! Como foi que você adivinhou?
- Pela letra no envelope. Achei que era letra de professora.
- O senhor não recebe muitas cartas. A julgar pelo seu lixo.
- Pois é...
- No outro dia tinha um envelope de telegrama amassado.
- É.
- Más notícias?
- Meu pai. Morreu.
- Sinto muito.
- Ele já estava bem velhinho. Lá no Sul. Há tempos não nos víamos.
- Foi por isso que você recomeçou a fumar?
- Como é que você sabe?
- De um dia para o outro começaram a aparecer carteiras de cigarro amassadas no seu lixo.
- É verdade. Mas consegui parar outra vez.
- Eu, graças a Deus, nunca fumei.
- Eu sei. Mas tenho visto uns vidrinhos de comprimido no seu lixo...
- Tranqüilizantes. Foi uma fase. Já passou.
- Você brigou com o namorado, certo?
- Isso você também descobriu no lixo?
- Primeiro o buquê de flores, com o cartãozinho, jogado fora. Depois, muito lenço de papel.
- É, chorei bastante, mas já passou.
- Mas hoje ainda tem uns lencinhos...
- É que eu estou com um pouco de coriza.
- Ah.
- Vejo muita revista de palavras cruzadas no seu lixo.
- É. Sim. Bem. Eu fico muito em casa. Não saio muito. Sabe como é.
- Namorada?
- Não.
- Mas há uns dias tinha uma fotografia de mulher no seu lixo. Até bonitinha.
- Eu estava limpando umas gavetas. Coisa antiga.
- Você não rasgou a fotografia. Isso significa que, no fundo, você quer que ela volte.
- Você já está analisando o meu lixo!
- Não posso negar que o seu lixo me interessou.
- Engraçado. Quando examinei o seu lixo, decidi que gostaria de conhecê-la. Acho que foi a poesia.
- Não! Você viu meus poemas?
- Vi e gostei muito.
- Mas são muito ruins!
- Se você achasse eles ruins mesmo, teria rasgado. Eles só estavam dobrados.
- Se eu soubesse que você ia ler...
- Só não fiquei com eles porque, afinal, estaria roubando. Se bem que, não sei: o lixo da pessoa ainda é propriedade dela?
- Acho que não. Lixo é domínio público.
- Você tem razão. Através do lixo, o particular se torna público. O que sobra da nossa vida privada se integra com a sobra dos outros. O lixo é comunitário. É a nossa parte mais social. Será isso?
- Bom, aí você já está indo fundo demais no lixo. Acho que...
- Ontem, no seu lixo...
- O quê?
- Me enganei, ou eram cascas de camarão?
- Acertou. Comprei uns camarões graúdos e descasquei.
- Eu adoro camarão.
- Descasquei, mas ainda não comi. Quem sabe a gente pode...
- Jantar juntos?
- É.
- Não quero dar trabalho.
- Trabalho nenhum.
- Vai sujar a sua cozinha?
- Nada. Num instante se limpa tudo e põe os restos fora.

- No seu lixo ou no meu?

domingo, 20 de junho de 2010

Brasilidade

Fico emocionado e feliz com o clima o qual a Copa do Mundo nos presenteia.
É muito bom ver as ruas pintadas de verde e amarelo, as bandeirolas tipicamente juninas e nordestinas tremulando nestas cores.
Carros e mais carros com bandeiras do Brasil penduradas,  plotadas e adesivadas.
O verde e o amarelo nunca vestiu tanto o nosso povo!
De minha janela vejo a manifestação dos que acreditam no Hexa, que acreditam no Brasil, que vibram e cantam "personificadamente" com o coração.
Coração verde e amarelo!
E a acepção destas cores vai mais além, traduz a coragem, a força e a garra de um povo que sofre com diversas mazelas e que mesmo assim é feliz. Há quem diga que isso é burrice, alienação; eu prefiro chamar de Brasilidade! Eu tive a sorte de nascer BRASILEIRO!
Durante este mês, viveremos a dualidade ora mesclada por detalhes azuis e brancos, esqueceremos os problemas, as diferenças, acreditaremos - por fugacidade ou utopia - que tudo se resume aquilo, àquela jogada, àquele lance, àquele GOL!!!!!!!!!!!!!!
Isso mesmo, partidaço e golaço, o ufanismo presente é revigorante; devemos sim, aproveitar o momento de união e pensarmos no quanto a nossa mobilização pode promover.
Mais uma vez, estamos  vivendo um sonho, e que este nos sirva de exemplo para todos os outros aspectos que enfrentamos na nossa realidade.

Vamos meu Brasil!!!!!!

Homenagem Póstuma

Infelizmente perdemos um grande escritor.
Saramago se foi no último dia 18 de junho aos 87 anos, e com certeza todos nós sentiremos muito por sua partida.
Percalços, dificuldades e persistência; acho que são palavras que marcaram a vida deste Português.
Filho de uma família simples, autodidata e dedicado desde cedo aos estudos; devido as suas origens, Saramago foi impedido de entrar na universidade.
Durante algum tempo, o mesmo ficou sem publicar; em outro, partiu para as poesias, e apenas alcançado realmente o sucesso e os elogios da crítica no final da década de 80; por vezes, seu talento foi questionado e posto em xeque.
Contista, romancista e dramaturgo; o patrício em questão, por vezes polêmico e engajado politicamente; deixa hoje órfãos do saber, e mais pobre a nossa literatura.
Segue abaixo algumas passagens de Saramago, publicadas em seu Blog, Outros Cadernos.


Cada vez mais sós
Por Fundação José Saramago

Acho que todos nós devemos repensar o que andamos aqui a fazer. Bom é que nos divirtamos, que vamos à praia, à festa, ao futebol, esta vida são dois dias, quem vier atrás que feche a porta – mas se não nos decidirmos a olhar o mundo gravemente, com olhos severos e avaliadores, o mais certo é termos apenas um dia para viver, o mais certo é deixarmos a porta aberta para um vazio infinito de morte, escuridão e malogro.

“Cada vez mais sós”, in Deste Mundo e do Outro, Ed. Caminho, 7.ª ed., p. 216
(Selecção de Diego Mesa)


Responsabilidade
Por Fundação José Saramago

As misérias do mundo estão aí, e só há dois modos de reagir diante delas: ou entender que não se tem a culpa e, portanto, encolher os ombros e dizer que não está nas suas mãos remediá-lo — e isto é certo —, ou, melhor, assumir que, ainda quando não está nas nossas mãos resolvê-lo, devemos comportar-nos como se assim fosse.

La Jornada, México, 3 de Dezembro de 1998



Exibicionismos
Por José Saramago
Palavras como discrição, reserva, recato, pudor ou modéstia ainda se encontram em qualquer dicionário. Temo, porém, que algumas delas venham a ter, mais cedo ou mais tarde, o triste destino da palavra esgártulo, por exemplo, varrida, como outras, do dicionário da Academia por uma manifesta e pertinaz falta de uso que havia feito dela um peso morto nas eruditas colunas. Eu próprio não me lembro de a ter dito alguma vez e muito menos tê-la escrito. Já a palavra reserva, embora vá a caminho de perder a acepção que me levou a incluí-la na lista acima, tem garantida uma vida longa por aquilo da reserva de bilhete ou de lugar sem os quais serviços fundamentais como os transportes aéreos simplesmente não funcionariam. E isto sem esquecer outra reserva, a mental, inventada pelos jesuítas como explicação última de terem dito primeiro uma coisa e feito depois a contrária, operação, aliás, que vingou e prosperou ao ponto de acabar por se difundir na sociedade humana como condição mesma de sobrevivência.
Não é minha intenção moralizar, além de que se o fizesse perderia o meu tempo e suspeito que alguns leitores. Bem sabemos que a carne é fraca e que ainda o é mais o espírito por muito que se costume gabar das suas supostas fortalezas, que o ser humano é o território por excelência de todas as tentações amáveis possíveis, tanto as naturais como as que veio inventando em séculos e milénios de práticas reiteradas. Bom proveito lhe faça. Que atire a primeira pedra quem nunca se deixou tentar. A coisa começou por desapertar-se a roupa, por usá-la mais leve e reduzida, também mais transparente, pondo à mostra um número cada vez maior de centímetros quadrados de pele até se chegar ao nudismo integral cultivado com franqueza absoluta em certas assinaladas praias. Nada de grave, porém. No fundo, há em tudo isto, como já escrevi noutro contexto, uma certa inocência. Adão e Eva também andavam nus e, contra o que a Bíblia diz, sabiam-no perfeitamente.
Ao pôr em funcionamento o vigente espectáculo universal que concentra e ao mesmo tempo dispersa as atenções do mundo, não parece que hájamos previsto que iríamos dar nascimento a uma sociedade de exibicionistas. A divisão entre actores e espectadores acabou, o espectador vai para ver e ouvir, mas também para ser visto e ouvido. O poder da televisão, por exemplo, alimenta-se em grande parte desta simbiose malsã, mormente nos chamados reality shows, onde o convidado, para isso pago e às vezes regiamente, vai pôr a descoberto as misérias da sua vida, as traições e as vilezas, as canalhices próprias e alheias, e, se necessário fôr ao espectáculo, as da família e dos seus próximos. Sem discrição nem reserva, sem recato nem pudor, sem modéstia. Não faltará quem diga que ainda bem que é assim, que devemos abandonar aquele ferro-velho vocabular, portas abertas ainda que a casa cheire mal, alguns, não duvidemos, irão mesmo ao extremo de afirmar que se trata de um benéfica efeito da democracia. Dizer tudo, com a condição de que o essencial fique escondido. Sem vergonha.

 
O endereço abaixo para aqueles que tiverem o interesse em se aprofundar na obra do ganhador do prêmio Nobel de Literatura de 1998.
http://caderno.josesaramago.org/

 

terça-feira, 15 de junho de 2010

The song of the week

Ainda bem que filho de peixe, peixinho é!
E nesse caso, falo de uma bela sereia.
Até então, ouvia por influência de uma grande amiga, conhecia apenas as músicas da "mídia".
Que sorte ter amigos de bom gosto, e que bom que eles foram persistentes comigo.
Um belo dia, ou melhor, no 02º semestre de 2008, tive a sorte de assistir a um show da mesma, e tenho certeza que presenciei a um maravilhoso espetáculo de uma grande cantora.

Que voz, que simpatia e que PERNAS!!!

Há quem diga que ela vive à custa da mãe, que nada mais é do que uma figura caricata... Enfim, Maria Rita se encontrou, achou seu próprio estilo, desenvolveu e trouxe de volta o melhor do samba de partido alto em seu terceiro álbum.
É claro que alguns deslizes lá em 2003, no começo de sua carreira, quando a mesma quis promover o primeiro CD ("Maria Rita") às custas da distribuição de Ipods para grande parte da crítica não foi visto com bons olhos; porém, nada melhor que o tempo para remediar as situações, e neste caso em particular, como ele foi generoso!
O primeiro CD fez muito sucesso, foi recorde de vendas e arrancou muitos elogios também, além disso, Maria Rita levou para casa por resultado de seu trabalho, vários prêmios, e dentre eles alguns Grammys Latinos.
Finalmente em 2007, surge o Samba Meu, primeiro com o CD e depois com o DVD ao vivo; sendo este trabalhado pela cantora até o presente momento.
A turnê rodou os 04 cantos do país e foi neste momento que passei a gostar e admirar ainda mais a filha de Elis.
Gosto do álbum por completo, mas, como posso escolher apenas uma, fico com Cara Valente, composição de Marcelo Camelo, faixa 14 do CD citado.

 
 

Cara Valente

Não, ele não vai mais dobrar
Pode até se acostumar
Ele vai viver sozinho
Desaprendeu a dividir

Foi escolher o mal-me-quer
Entre o amor de uma mulher
E as certezas do caminho
Ele não pôde se entregar
E agora vai ter de pagar com o coração

Olha lá, ele não é feliz
Sempre diz
Que é do tipo cara valente
Mas, veja só
A gente sabe
Esse humor é coisa de um rapaz
Que sem ter proteção
Foi se esconder atrás
Da cara de vilão
Então, não faz assim, rapaz
Não bota esse cartaz
A gente não cai, não

Ê! Ê!
Ele não é de nada
Oiá!!!
Essa cara amarrada
É só
Um jeito de viver na pior
Ê! Ê!
Ele não é de nada
Oiá!!!
Essa cara amarrada
É só
Um jeito de viver nesse mundo de mágoas 

sábado, 12 de junho de 2010

A dois!

Valentines Day, Dias dos Namorados; tudo isso por culpa de um tal San Valentim que foi de encontro as ordens do Rei Ricardo II e continuou a casar os apaixonados. A majestade em questão, acreditava que os homens solteiros lutavam mais e melhor na guerra. Cá entre nós, Dunga deve pensar da mesma forma.

Até a mais sisuda, carrancuda e "assentimental" das criaturas hoje, disse ou fez para sua esposa (o), namorada (o), companheira (o), peguete,  um pequeno gesto de carinho.
Esta semana fomos tomados por um sentimento comercial e romântico.
Não podemos dizer que o consumismo existente não corrompeu essa data, porém ela foi incorporada à este atributo e ganhou novos moldes. Vá lá, é bom presentear quem gostamos!!
Observando apenas o foco; tentamos agradar, gastamos horas pensando no que faremos, na surpresa que aprontaremos, na comida, na roupa, na lingerie, na posição... e obviamente o fazer, é bem melhor que o pensar.
Hoje, mensagens foram recebidas, flores vendidas, encontros, reencontros, começos, e para ser mais enfadonho, recomeços. As mais diversas reações aconteceram, tudo foi perdoado, juras novas ou maiores foram feitas.
Cartões, corações, músicas, filmes , trilhas sonoras, jantares ... Aproveite a noite de hoje para dormir de conchinha, comer pipoca, jantar a luz de velas, relembrar historias, demonstrar desejo, e curtir a pessoa que está do seu lado, talvez seja ela a pessoa errada.
Mas daí, já entramos na crônica do nosso ilustre amigo Luís (LFV), e isso fica para uma próxima oportunidade.
 

@chei n@ NET. - Rita e Arnaldo.

AMOR É PROSA, SEXO É POESIA - Arnaldo Jabor


Sábado, fui andar na praia em busca de inspiração para meu artigo de jornal. Encontro duas amigas no calçadão do Leblon:
- Teu artigo sobre amor deu o maior auê... – me diz uma delas.
- Aquele das mulheres raspadinhas também... Aliás, que você tem contra as mulheres que barbeiam as partes? – questiona a outra.
- Nada... – respondo. – Acho lindo, mas não consigo deixar de ver ali nas partes dessas moças um bigodinho sexy... não consigo evitar... Penso no bigodinho do Hitler, do Sarney... Lembram um sarneyzinho vertical nas modelos nuas... Por isso, acho que vou escrever ainda sobre sexo...

Uma delas (solteira e lírica) me diz:
- Sexo e amor são a mesma coisa...
A outra (casada e prática) retruca:
- Não são a mesma coisa não...
Sim, não, sim, não, nasceu a doce polêmica ali à beira-mar. Continuei meu cooper e deixei as duas lindas discutindo e bebendo água-de-coco. E resolvi escrever sobre essa antiga dualidade: sexo e amor. Comecei perguntando a amigos e amigas. Ninguém sabe direito. As duas categorias trepam, tendendo ou para a hipocrisia ou para o cinismo; ninguém sabe onde a galinha e onde o ovo. Percebo que os mais “sutis” defendem o amor, como algo “superior”. Para os mais práticos, sexo é a única coisa concreta. Assim sendo, meto aqui minhas próprias colheres nesta sopa.

O amor tem jardim, cerca, projeto. O sexo invade tudo isso. Sexo é contra a lei. O amor depende de nosso desejo, é uma construção que criamos. Sexo não depende de nosso desejo; nosso desejo é que é tomado por ele.

Ninguém se masturba por amor. Ninguém sofre de tesão. O sexo é um desejo de apaziguar o amor. O amor é uma espécie de gratidão posteriori pelos prazeres do sexo.O amor vem depois, o sexo vem antes. No amor, perdemos a cabeça, deliberadamente. No sexo, a cabeça nos perde.

O amor precisa do pensamento.No sexo, o pensamento atrapalha; só as fantasias ajudam. O amor sonha com uma grande redenção. O sexo só pensa em proibições: não há fantasias permitidas. O amor é um desejo de atingir a plenitude. Sexo é o desejo de se satisfazer com a finitude. O amor vive da impossibilidade sempre deslizante para a frente. O sexo é um desejo de acabar com a impossibilidade. O amor pode atrapalhar o sexo. Já o contrrário não acontece. Existe amor sem sexo, claro, mas nunca gozam juntos.

Amor é propriedade. sexo é posse. Amor é a casa; sexo é invasão de domicílio. Amor é o sonho por um romântico latifúndio; já o sexo é o MST. O amor é mais narcisista, mesmo quando fala em “doação”. Sexo é mais democrático, mesmo vivendo no egoísmo. Amor e sexo são como a palavra farmakon em grego: remédio e veneno. Amor pode ser veneno ou remédio. Sexo também – tudo dependendo das posições adotadas.

Amor é um texto. Sexo é um esporte. Amor não exige a presença do “outro”; o sexo, no mínimo, precisa de uma “mãozinha”. Certos amores nem precisam de parceiro; florescem até mais sozinhos, na solidão e na loucura. Sexo, não – é mais realista. Nesse sentido, amor é uma busca de ilusão. Sexo é uma bruta vontade de verdade. Amor muitas vezes e uma masturbação. Sexo, não. O amor vem de dentro, o sexo vem de fora, o amor vem de nós e demora. O sexo vem dos outros e vai embora. Amor é bossa nova; sexo é carnaval.

Não somos vítimas do amor, só do sexo. “O sexo é uma selva de epiléticos” ou “O amor, se não for eterno, não era amor” (Nelson Rodrigues). O amor inventou a alma, a eternidade, a linguagem, a moral. O sexo inventou a moral também do lado de fora de sua jaula, onde ele ruge. O amor tem algo de ridículo, de patético, principalmente nas grandes paixões. O sexo é mais quieto, como um caubói – quando acaba a valentia, ele vem e come. Eles dizem: “Faça amor, não faça a guerra”. Sexo quer guerra. O ódio mata o amor, mas o ódio pode acender o sexo. Amor é egoísta; sexo é altruísta. O amor quer superar a morte. No sexo, a morte está ali, nas bocas...

O amor fala muito. O sexo grita, geme, ruge, mas não se explica. O sexo sempre existiu – das cavernas do paraíso até as saunas relax for men. Por outro lado, o amor foi inventado pelos poetas provinciais do século XII e, depois, revitalizado pelo cinema americano da direita cristã. Amor é literatura. Sexo é cinema. Amor é prosa; sexo é poesia. Amor é mulher; sexo é homem – o casamento perfeito é do travesti consigo mesmo. O amor domado protege a produção. Sexo selvagem é uma ameaça ao bom funcionamento do mercado. Por isso, a única maneira de controla-lo é programa-lo, como faz a indústria das sacanagens. O mercado programa nossas fantasias.

Não há saunas relax para o amor. No entanto, em todo bordel, fingi-se um "amorzinho" para iniciar. O amor está virando um “hors-d’oeuvre” para o sexo. O amor busca uma certa “grandeza”. O sexo sonha com as partes baixas. O perigo do sexo é que você pode se apaixonar , e o perigo do amor é virar amizade. Com camisinha, há sexo seguro, mas não há camisinha para o amor.

O amor sonha com a pureza. Sexo precisa do pecado. Amor é o sonho dos solteiros. Sexo, o sonho dos casados. Sexo precisa da novidade, da surpresa. “O grande amor só se sente no ciúme” (Proust). O grande sexo sente-se como uma tomada de poder. Amor é de direita. Sexo, de esquerda (ou não, dependendo do momento político. Atualmente, sexo é de direita. Nos anos 60, era o contrário. Sexo era revolucionário e o amor era careta). E por aí vamos. Sexo e amor tentam mesmo é nos afastar da morte. Ou não; sei lá... e-mails de quem souber para o autor.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

The song of the week

Esta semana trago Pitty (ousadia de minha parte), sendo ela, a representação ou até mesmo a própria contradição da música baiana.
Pitty se firmou emplacando hits nos seus 04 álbuns, sendo que o primeiro foi escrito com base no seu diário de infância. O último, Chiaroscope, além de todo um contexto intimista que podemos observar no DVD, traz músicas que particularmente unem boas letras a ótimas melodias.
Ressalto as faixas 02 -  Me adora, 06 -  Fracasso e 07 -  Desconstruindo Amélia.
E como estamos em uma semana onde o amor transborda e os casais estão suspirando, fica a primeira citada como a escolhida.
Por mais duro que você seja, por menos sentimental, de alguma forma você saberá dizer o que a outra pessoa quer ouvir...

Aproveite, e não perca a oportunidade "pra" falar que aquela pessoa é phoda!


Me adora - Faixa 02 Chiaroscope

Tantas decepções eu já vivi

Aquela foi de longe a mais cruel
Um silêncio profundo e declarei:
“Só não desonre o meu nome”

Você que nem me ouve até o fim
Injustamente julga por prazer
Cuidado quando for falar de mim
E não desonre o meu nome

Será que eu já posso enlouquecer?
Ou devo apenas sorrir?
Não sei mais o que eu tenho que fazer
Pra você admitir

Que você me adora
Que me acha foda
Não espere eu ir embora pra perceber
Que você me adora
Que me acha foda
Não espere eu ir embora pra perceber

Perceba que não tem como saber
São só os seus palpites na sua mão
Sou mais do que o seu olho pode ver
Então não desonre o meu nome

Não importa se eu não sou o que você quer
Não é minha culpa a sua projeção
Aceito a apatia, se vier
Mas não desonre o meu nome

Será que eu já posso enlouquecer?
Ou devo apenas sorrir?
Não sei mais o que eu tenho que fazer
Pra você admitir

Que você me adora
Que me acha foda
Não espere eu ir embora pra perceber
Que você me adora
Que me acha foda
Não espere eu ir embora pra perceber

domingo, 6 de junho de 2010

Chicos

Ontem fui ao teatro, aliás, é o que mais tenho feito além de frequentar bares ultimamente.
Feira, por algum motivo que eu desconheço, tem recebido algumas peças legais e vale a pena prestigiar e  incentivar tal movimento.
Acho o teatro uma caixinha de pandora, onde descobrimos o segredo com o apagar das luzes e com o entrar em cena dos personagens.
Voltando ao dia já citado, Chicos é uma boa peça, mescla letras das canções de Chico Buarque, que por si só já valem a pena.
Fiquei feliz em saber que tem gente nova, engajada no teatro, gente da terra que acredita nesse sonho; foi bom ver a "casa" lotada.
Alguns erros de continuidade existem na peça, porém, ao se olhar pelo macro; o saldo é positivo. Parabéns ao elenco, belo trabalho e sucesso!  

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Olhos de Ressaca

Pois bem, quem nunca ouviu ou leu esta expressão?


Mais que 100 anos depois, ainda temos uma incógnita que paira sobre a fidelidade de Capitu.
Obra machadiana escrita em 1899, e um dos grandes best-sellers da literatura clássica; Dom Casmurro, mesmo com uma linguagem sisuda e não contemporânea quanto à escrita, consegue ser atual no que diz respeito a uma das maiores incertezas da nossa vida conjugal, a fidelidade. Por assim dizer, não só entra em questão a nossa amada Capitu, como também aquela dúvida que sempre fica nos rodeando, que gera uma coceirinha na nossa cabe...; orelha, sim, orelha!
Quantas traições existiram ou não dentro da nossa vida, Machado, conseguiu fazer o indecifrável.
Não fui traído e nem estou com alguma cisma me rodeando, aliás...
Bentinho morreu com essa dúvida, ou pior, ele revive diversas vezes sem chegar a nenhuma conclusão.
Se alguém não se lembra, o título foi atribuído pelo personagem principal ser calado e metido, recluso; o "título" de Dom veio por pura ironia.Talvez daí tenha lhe faltado a intromissão do ombro amigo, se bem que a duvída está ligado a este último.
Talvez pela data alusiva que se aproxima, tal livro me veio à cabeça, enfim.
O que é certo, é o talento de Machado e a importância dessa obra pra nossa sociedade.
Olhe mais para os lados, cuide-se para não ser absorvido pelos revoltos olhos de ressaca, e não deixe de se divertir nos braços das "Capitus" que aparecerem no caminho.
Brincadeiras a parte, segue abaixo o fragmento.
Leia, contextualize e tire suas conclusões.


“Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá idéia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros; mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me. Quantos minutos gastamos naquele jogo? Só os relógios do céu terão marcado esse tempo infinito e breve. A eternidade tem as suas pêndulas; nem por não acabar nunca deixa de querer saber a duração das felicidades e dos suplícios.”

Manifeste-se